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Tempos difíceis

  • Por João Mouga Vieira
  • 01 de Julho, 2015
  • Comentários

Poderia falar da Grécia e da tempestade perfeita que se está a formar na Europa civilizada e solidária, onde os aspectos essenciais do Governo grego e da Troika têm sido deixados à margem de uma discussão com muitos culpados e poucos inocentes.

Poderia falar do terrorismo e da escalada de medo que o mesmo vem provocando também nesta Europa civilizada e solidária, que começa a sentir os efeitos da ressaca provocada pelas chamadas Primaveras árabes que se têm transformado, uma após outra, em invernos tempestuosos.

Poderia falar no que a Grécia e a sua situação influenciarão Portugal, muito mais do que se tem dito e escrito. Não só pela economia, mas pela questão geopolítica de que parece andarmos esquecidos enquanto olhamos para os ganhos e perdas da bolsa e a especulação que nos pode afectar positiva ou negativamente.

Poderia falar dos emigrantes que arriscam a vida no Oriente ou no Norte de África para terem uma hipótese de viver. Sim, o que nós chamamos de viagens para a morte, são para esses emigrantes hipóteses de vida. Estranho mundo este.

Mas prefiro citar um texto. É uma questão da análise custo/benefício de que tantas vezes falamos. É que neste caso há já quem tenha dito aquilo que eu quero dizer, e ainda por cima com o benefício da qualidade.

«Povos Sem Sorte

As pessoas podem sentir pena de um homem que está a passar por tempos difíceis, mas quando um país inteiro é pobre, o resto do mundo assume que todos os seus cidadãos são desmiolados, preguiçosos, sujos, tolos e desajeitados. Em vez de pena, provocam o riso. É tudo uma anedota: a sua cultura, os seus costumes, as suas práticas. Com o tempo o resto do mundo pode, parte dele, começar a ficar envergonhado por ter pensado dessa maneira, e quando olham em volta e vêem os imigrantes desse pobre país a esfregar o chão e a fazerem os trabalhos pior pagos, eles naturalmente preocupam-se sobre o que poderia acontecer se um dia estes trabalhadores se insurgissem contra eles. Assim, para manter as aparências agradáveis, começam a interessar-se pela cultura dos imigrantes e às vezes até fingem que pensam neles como se fossem seus iguais.

Orhan Pamuk – Prémio Nobel da Literatura »

Artigo escrito por João Paulo Dinis

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